Querida Doutora, estou com 21 anos e nunca trabalhei, estou louca por um emprego, preciso demais ter a minha independência financeira por vários motivos, entre eles a hormonização, pois não agüento mais viver debaixo do mesmo teto que os meus pais. Bem, já terminei os estudos, fiz alguns cursos, como desenho e história da moda, inglês, mas não concluí, e também informática. Não me dou bem com o PC mas sei me virar. Tentei vestibular na UFRJ mas não consegui passar (sou muito burrinha) e não quero saber de faculdade por enquanto, prefiro deixar para depois, quando já estiver estabilizada financeiramente, e fazer em uma particular. Gostaria de saber como conseguir um emprego em que não sofra algum tipo de descriminação, já que jamais trabalharia em algum lugar onde exigissem uma postura masculina de mim.
Ah, e não me venha falar de cabeleireiro, essas coisas que são uó (rsrs), pois não tenho nada contra mas não quero isso pra mim, maquiagem eu até gosto bastante mas também não quero como profissão. Gosto de moda, de desenhar, me acho uma pessoa criativa, não tenho frescuras com profissões e trabalharia numa boa em qualquer lugar desde que tivesse o respeito de todos, quero trabalhar dignamente, ter o meu dinheirinho suado no final do mês, só não quero ficar bitolada em alguma profissão que geralmente cabe a "gays", enfim...
Também gostaria de saber sobre o currículo, existe a possibilidade de citar algo sobre disforia de gênero? E na entrevista como me portar, me vestir? É constrangedor ouvir alguém dizer, por exemplo, em uma entrevista de emprego: "Sr. João”, aí levanto eu. É uó! Nem ligo mais tanto, pois nos últimos cursos e no pré-vestibular foi assim e foi tudo bem, mas na entrevista me sinto insegura e sei que serei dispensada apenas por isso, gostaria muito de ter algum tipo de ajuda com relação a isso, uma dica, qualquer coisa já seria muito bom pra mim. Obrigada!
Bem, querida, não sei qual sua aparência social mas adianto umas coisinhas das quais não vai gostar:
Num período recessivo, sem uma profissão definida e sem faculdade fica difícil. Acho que deve lutar até conseguir entrar numa universidade pública enquanto está sob a proteção dos pais. Só depois de uma faculdade poderá conseguir sua independência financeira. Antes é difícil.
Você tem que procurar uma carreira interessante, na saúde (médica, psicóloga, enfermeira com curso superior, farmacêutica etc.), no direito ou em outras áreas que mostre afinidade, como administração, entre outras. Como é jovenzinha ainda, numa faculdade ainda com os pais, pode procurar sobreviver escondidinha sob um "disfarce gay", pois gay é mais tolerado que disfórica na faculdade ou no trabalho, no início. Depois que conquistar seu espaço profissional pode sair do casulo, aos pouquinhos.
Uma boa carreira é no serviço público, pois se passar num exame de seleção terá direitos, independentemente da condição que tiver, mas sempre sugiro começar num trabalho como menino gay até conquistar a posição e aparecer mais como menina disfórica. O serviço público é sempre bom pelas garantias de não ter um patrão que diga: “Não gosto de gays... e você não é mulherzinha!” (ou hominho). No serviço público não há quem se meta em sua intimidade de vida, pois você é empregado por ser cidadão qualificado, pode ser até um extraterrestre... mas será um extraterrestre com direitos.
Conseguir a independência é difícil. Faça uma faculdade como biblioteconomia e depois tente conseguir um lugar no serviço público. Quem sabe história ou um curso superior em línguas, inglês, tradutora... e assim vai. Portanto, não caia no mundo sem estar preparada, pois pode acabar mesmo como cabeleireira ou manicure, se não preparar seu terreno com inteligência antes, enquanto está sob a tutela dos pais.
Tudo bem, o período na casa paterna geralmente é de torturas e conflitos, mas aprendam a usá-lo a favor de vocês, como uma preparação para o futuro. Usem-no para estudar, pois fazer uma faculdade é fundamental, assim como ter um inglês sólido. Não desperdicem esse tempo com conflitos fúteis, mas vão à luta – estudem, se preparem e preparam a carreira profissional que dará a independência futura.
Em suma, escolham uma carreira condizente com seus dons e facilidades, afinidade é essencial.
Boa sorte!
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Esta série de posts conta com a autorização de publicação da terapeuta e sexóloga Martha Freitas (também conhecida como Wal Torres). Perguntas a esta coluna deverão ser feitas diretamente à comunidade da Clínica Gendercare no Orkut, para posteriormente figurarem aqui.
Só para não perder o costume, vim comentar o que penso:
ResponderExcluirSe entrar em uma vida acadêmica, universitária, para uma pessoa dita normal, já é bem difícil, imagine para quem tem disforia ou algum outro tipo de problema - não falo em matéria financeira, como bem diz o ditado, dinheiro não é problema, é solução e para que a solução chegue é questão de tempo, mas em matéria de ser-se aceito como se é! - é praticamente como realizar um sonho impossível! Minha amiga Vida mesmo, MtF como você, prestou o vestibular, passou em primeiro lugar em sua turma, mas teve o empecilho do reitor de sua universidade. O mesmo a travava na secretaria da universidade, não a deixava se matricular, causou-lhe um tamanho constrangimento (declarou publicamente que não poderia tolerar ter uma estudante que não sabia se urinaria sentada ou em pé). Minha amiga só conseguiu se matricular depois de dois anos no curso que escolheu, e mesmo assim, precisou abrir um processo judicial. É difícil mesmo, nosso ensino superior é regido em sua maior parte por cabeças-duras!
Nossa, Pangéia, que relato forte! Merecia indenização e muita mídia em cima. Eu recorreria até o fim, é só assim que as coisas mudam, infelizmente.
ResponderExcluirÉ foda, mas essa é a triste realidade em um país como o nosso. Por aqui ainda existe muito preconceito com relação a questões de ordem sexual, principalmente em cidadezinhas do interior por estas serem ainda imbuídas de um conservadorismo infantil e pseudo-machista demais!
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